segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Zumbi dos Palmares


O que nós temos de concreto é que, de fato, a Associação Cultural Zumbi tinha
uma deficiência no que diz respeito à fomentação de uma política de base. É perceptível
no depoimento de seus militantes que a ACZ fazia palestras constantes nas escolas do
Estado. No entanto, tais palestras não eram seguidas de um maior acompanhamento,
onde mais tarde a entidade pudesse ter a formação de quadros. Acreditamos que houve
um erro no que diz respeito ao direcionamento de tais palestras, as mesmas deveriam ter
sido desenvolvidas junto aos grupos negros organizados, de forma a ter um maior controle
sob tal formação. Sobre este assunto comentaria ainda um de seus militantes: “Como é
que ela é uma Associação que tenta discutir a questão do negro se a maioria da
população negra está fora da Associação? Era essa a nossa grande contradição, o nosso
grande problema.” (J. Roberto — 11/ 01/ 2003).
Apesar dos problemas, a Associação Cultural Zumbi pôde contribuir com o
processo de tombamento da Serra da Barriga, que se deu em 1985, sendo resultado da
concentração de esforços de entidades do país inteiro. É nesse processo que temos o
surgimento do Memorial Zumbi, ao qual a ACZ se vincularia, constituindo uma espécie de
conselho que seria ainda composto por algumas representações nacionais. O Memorial
Zumbi tinha por objetivo construir um Memorial na serra da Barriga, que concentraria tanto
documentos como os assuntos referentes à questão negra. Ainda nesse processo nós
teríamos o surgimento da Fundação Cultural Zumbi dos Palmares (Fundação Zumbi), órgão
diretamente ligado à Prefeitura do Município de União dos Palmares, que também
contribuiu com o processo de tombamento da Serra.
Na verdade, o Memorial Zumbi e a Fundação Zumbi tinham cada qual o seu
projeto, afora o tombamento, para ser executado na Serra da Barriga, mas nenhuma das
duas instituições obtiveram êxito em seus objetivos, tendo em vista a não disposição de
verbas por parte do Governo para a consolidação dos mesmos.
Como todas as entidades negras do país, no decorrer de sua atuação, a
Associação Cultural Zumbi também sofreu de algumas rotulações advindas dos setores
mais reacionários e mesmo até dos que se pretendem discutir a questão negra. É nesse
sentido que a ACZ e outras entidades receberam as mais variadas críticas, sendo taxada
desde uma entidade que queria fundar um “Estado negro” no país até de “racista às
avessas” como atesta o depoimento de seus militantes: “Aqui em Alagoas (...) a esquerda
tem um certo preconceito com o movimento negro porque eles acham que a gente tenta
substituir a luta de classes por uma luta racial”. (Marcelino — 15/ 10/ 2002). Em outro
momento: “(...) alguns (...) achavam que a questão negra... não existia a questão racial, o
que existia era uma questão de classe (...)”. (Vanda — 07/ 11/ 2002).
Estes argumentos demonstram a “falta de compreensão” de alguns setores da
sociedade sobre a particularidade da problemática negra, o que por sua vez, dificultaria o
avanço na atuação do movimento negro aqui no Estado.
A Associação Cultural Zumbi, enquanto uma das primeiras entidades do
Movimento negro alagoano, pôde discutir e inserir no Estado a preocupação com a
comunidade afro-alagoana enquanto particularidade de uma população. Tal
empreendimento se deu de forma a privilegiar a afirmação cultural da luta negra em
detrimento de uma postura política reivindicatória, o que evidencia uma prática política
limitada naquela Associação. A conseqüência dessa situação é a despolitização da luta
negra, ficando esta reduzida à afirmação do ser negro, embora tal fator seja importante,
desde que não se constitua em um fim. Este, seria a efetivação (proposição) de políticas
públicas que venham de fato a colocar o afro-descendente na condição de cidadão
brasileiro.
O estudo do Movimento negro em Alagoas e em especial da Associação Cultural
Zumbi, constitui tarefa inacabada, tendo em vista que foi dado um dos primeiros passos
na busca de sua compreensão e problematização.
Notas
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