terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Reflexos da Arte Mourisca na Estética da Indumentária dos Vaqueiros e Cangaceiros

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Nos anos 1920 e 1930 do século passado, muitos músicos e conjuntos musicais nordestinos, cantadores e artistas de palco, usavam os ícones estéticos de suas origens para se apresentar nos palcos do Rio de Janeiro. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, emprestou a sua fama, prestígio e imagem para a consolidação da estética do vaqueiro, por meio do uso das vestimentas de couro nas suas apresentações, principalmente o gibão, o chapéu e as alpercatas. O filme de Lima Barreto (1906-1982), O Cangaceiro, realizado em 1953, ganhador do prêmio de “melhor filme de aventura” no Festival de Cannes, foi, durante muito tempo a vitrine de um mítico nordeste brasileiro, exótico, místico e messiânico. Falado através dos diálogos da autora de “O Quinze”, Rachel de Queirós, percorreu o mundo transformando a visão do cangaço marginal, dos bandoleiros nordestinos, em algo novo, de forte apelo estético, trazendo uma reflexão sobre temas sociais da cultura brasileira. Ganhou também o prêmio de “melhor trilha sonora” na espetacular interpretação de “Olê Mulher Rendeira” por Vanja Orico. Com produção da Vera Cruz, a Columbia Pictures colocou a película em mais de 80 países. Só na França o filme manteve-se em cartaz durante cinco anos.
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Formatava-se de vez a estética desta indumentária que até os dias de hoje inspira estilistas, designers, artistas e profissionais ligados às artes. Mais tarde o Cinema Novo trouxe impressionantes imagens, inspiradas nesta estética, que foi sua aliada para dar formato a um novo olhar sobre a poética, técnicas e abordagens cinematográficas na busca de uma linguagem brasileira. Somos sabedores da origem desta postura da indumentária: o contato do colonizador branco com o índio durante o avanço dos currais sertões adentro no nordeste brasileiro. Enfrentar a caatinga com toda a sua vegetação agressiva, o sol, as longas distâncias para pajear ou tanger o gado em busca de água e comida, fez com que o vaqueiro lançasse mão do material que tinha em abundância para vestir-se adequadamente para esses eventos de labuta diária. Vemos então verdadeiras “armaduras” de couro, conjuntos de gibão, peitoral, perneiras, luvas, jaleco, chapéu e alpercatas serem incorporados no cotidiano deste tipo étnico.
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As decorações e enfeites do gibão de couro despertam lembranças longínquas naqueles que os observa com mais atenção. São desenhos estilizados, como arabescos, feitos em altos e baixos relevos, por meio de peculiares técnicas, com pespontos manuais ou não, variação nas tonalidades dos couros e fechamentos com cordões. As perneiras cobrem as pernas partindo do pé e indo de encontro às virilhas onde são amarradas, deixando o quadril e as nádegas livres para a cavalgadura. Alguns modelos se apresentam trabalhados e reforçados com vieses e pespontos com linha grossa. As luvas protegem o dorso das mãos dos espinhos e deixam livres os dedos para melhor manuseio das chibatas e das rédeas. O chapéu fixa-se “enterrado” na cabeça como prolongamento desta. Serve até para beber água e comer. O colete ou jaleco é “double face”, feito em couro amaciado de carneiro, podendo ser utilizado em dias de festas ou nas noites frias com a lã em contato com o corpo.
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Já o cangaceiro, diferente na sua personalidade e atividades, recebeu outros acessórios como os bornais e bisacos, que eram bordados com linhas coloridas e enfeites metálicos, chapéu com aba virada, numa alusão e referência ao estilo Bonaparte, alpercatas de rabicho, meias, lenços e adereços de enfeite, cartucheiras, cintos, coldres. Esses acessórios cobriam as roupas de algodão grosso em tons caqui e azul, que raramente saiam do corpo por estar, o cangaceiro, sempre pronto para a retirada. A estética do cangaceiro tem um quê de medieval, que por si só lembra um pouco os detalhes das artes decorativas orientais. Quando observamos nas selas e nos acessórios de montaria os desenhos que lembram grafismos continuados, outros sinuosos e simétricos vêm-nos em mente os desenhos mouriscos de plantas e animais estilizados. Lembramos que em grande parte das artes do Oriente Próximo e dos países do norte da África e da Espanha invadida pelos árabes, por conta da religião e do misticismo, não era costume a representação iconográfica e figurativa de seres humanos e da natureza em peças artísticas, de decoração e da arquitetura, salvo em algumas situações. Só ao “Criador” era dada a tarefa de criar. Não ao homem. Artifício ou não, identificamos desenhos estilizados de silhuetas de animais, folhas, flores e perfis humanos nos desenhos destarte.
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Ao encontrarmos referências gráficas nas peças das indumentárias do vaqueiro e do cangaceiro nordestinos percebemos uma semelhança sutil, mas muito representativa do ponto de vista da transmigração dos símbolos e reinterpretação dos significados. Para entender basta girarmos o caleidoscópio da História e seguirmos o fio das conquistas islâmicas na Península Ibérica, principalmente na Espanha. Com a migração dos saberes e labores e as influências dos costumes e artes por todas as terras conquistadas e alhures, chegam além Gibraltar e do Atlântico, levando a memória do fazer e como fazer e se adequar. As artes ditas menores absorvem e se adequaram às estas mudanças.
A colonização do Brasil por Portugal explica as referências iconográficas encontradas nas manufaturas e no artesanato de couro até hoje. Basta adentrarmos nos Sertões e rincões nordestinos e observar a perpetuação do traço e das linhas de origem da arte árabe, da mesma forma que encontramos referências de outras culturas, como a Judaica, trazidas pelos Cristãos Novos e amalgamadas na massa multiétnica e cultural que é esta grande região do Brasil.

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