sexta-feira, 9 de março de 2012

O Cangaço, por Frederico Pernambucano de Mello

Na pausa silenciosa, nada se ouve, nada se mexe. O matagal baixo e seco esconde sua vida do sol que esturrica e desbota. No entanto, entre a palha e a galharia, nota-se uma estranha floração. São pequenas margaridas, em azuis e amarelos, numa folhagem empoeirada e seca estriada de vermelho. Mas que estupenda miragem: o matagal se ergue em algodão caqui bordado, e a frente daquele exótico grupo, na caatinga morna, é Maria Bonita que emerge, colorida e estampada, morena em caqui e vermelho na perdição do cangaço.

  
Lampião e Maria Bonita pelas lentes de Benjamin Abrahão

Foi na cidade de Serra Talhada que, aos 21 anos de idade, em 1919, o jovem Virgulino Ferreira da Silva (04/06/1898-28/07/1938) se tornou procurado pela policia, ao vingar violentamente a morte do pai, assassinado em uma rixa de famílias. Fugido para a mata, começava ali a saga épica desse bandoleiro do cangaço, conhecido como Capitão Lampião, e seu bando. O cangaço já era um fenômeno antigo da caatinga nordestina, e suas praticas violentas eram de uso pecuniário e politico dos coronéis latifundiários. O primeiro cangaceiro teria surgido no final do século XVIII, o “Cabeleira”, cria de um influente coronel do recôncavo. Quando Lampião e seu bando passaram a assombrar e fascinar o sertão nordestino, o cangaço já era então antigo caso de policia e politica. A história e estórias do cangaço e das vidas de Lampiaõ e seu bando são de uma riqueza e extensão que não cabem em texto curto. Até hoje existem controvérsias sobre como entender e classificar as práticas do grupo e falar de Lampião, idolatrado no sertão, esse homem que foi abençoado por Padre Cicero (quando contratado por Artur Bernardes para combater a Coluna Prestes, em 1926) e instalou o terror entre os fazendeiros do latifúndio nordeste. Meu interesse por Lampião, porem, vai além da crônica policial, aonde o extenso currículo do bando esta detalhadamente descrito. Esse “rei do cangaço”, como era chamado, era também um esteta, e levou para a bandidagem da caatinga uma elegância e sofisticação até hoje admiradas.
Chapéu de couro: um símbolo de poder no cangaço,  e embornal com peitoral customizado.
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Com o rosto queimado pelo sol e emoldurado por um chapéu de couro em meia-lua, com a aba virada para cima e adornada por moedas e pedrarias aplicadas entre bordados, era como uma coroa. Sua aparição, em farda caqui cortada rente ao corpo em requintada alfaiataria, suas botas bordadas e seu pescoço envolvido pelo lenço de seda em meio aos vapores de perfumes franceses, causava nas pessoas profundo impacto, e Lampião rápido se tornou uma figura de nobreza para o povo do sertão. Vaidoso, impôs a todo o seu grupo o apreço e capricho pelas vestimentas e acessórios. A principio todo o grupo era formado por homens, e era famosa uma das primeiras perguntas que Lampião fazia aos que pretendiam ingressar no bando: “sabe costura?”. Todos costuravam e bordavam, em preciosa customização dos trajes copiados da farda das tropas federais (os “macacos”, como chamavam seus perseguidores), confeccionados no brim caqui do exercito (sempre roubado, assim como as armas). O caqui recebia então bordados em linha branca e aplique de rendas nos cantis e botas. A seda inglesa ou o tafetá francês dos lenços, cortados como os famosos quadrados “tabaqueiros”, eram quase sempre vermelhos, mas com o tempo passaram a ser feitos também com estampados, como florais e cashmere, e eram cuidadosamente presos ao pescoço por vários anéis de ouro ou prata.

 
Bolsas e cantil com customizações em apliques e bordados.

Em 1930 Lampião conhece Maria Gomes de Oliveira (08/03/1911-28/07/1938), e resgatando-a de um casamento infeliz (“...eu vou ou você me leva?...”), a introduz na vida do cangaço. Cabocla bonita, de grandes olhos melancólicos e morenos, Maria Bonita se instala na vida de Lampião e a partir dai se desenrola o épico. Sabinas do cangaço, outras mulheres foram sequestradas e levadas para a vida na bandidagem da caatinga. Algumas eram brutalizadas e até mortas pelos companheiros, e nesse caldo de violência e romance, uma estória de ódio e amor merece destaque: Corisco e Dada.
Corisco com os cachorros Dourado e Jardineira.

Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco (10/08/1907-25/05/1940), era conhecido por sua beleza física, um rapaz atlético que usava longos cabelos (extremamente bem cuidados), e sua presença lhe rendeu dois apelidos: “príncipe”, pelo aspecto, e “diabo loiro”, pela violência. Corisco era desertor do exército e entrou para o bando de Lampião (que tinha por ele grande amizade) em 1926, se tornando o segundo em comando, até 1938, quando formou seu próprio bando. Em 1928, conhece Sérgia Ribeiro da Silva (25/04/1915-02/1994), que ele rapta e viola brutalmente. A relação inicial de Corisco e Dada é de ódio, predador e presa. É no cotidiano da caatinga que Dada passa a se afeiçoar a Corisco, que por ela havia se apaixonado perdidamente. Alfabetizado (assim como Lampião, que era inclusive dado a leituras), ensina Dada a ler, escrever e fazer contas, e juntos terão sete filhos, além de terem sido o único casal do cangaço a se casar na Igreja. É a essa mulher que a estética do cangaço deve seu glamour: eximia costureira e bordadeira, Dada aprimora a alfaiataria da farda, com pregas e cortes enviesados, desenhando o corpo e facilitando os movimentos pela mata. Seus bordados florais multicoloridos passam a enfeitar os chapéus, cantis, bolsas e botas. Os lenços ganham monogramas. Introduz as faixas bordadas para peitorais e o uso de moedas e pedrarias ganham um incremento com os bordados de miçangas. As camisas, antes apenas em caqui, passam a ser feitas em azuis também. As luvas, que usavam para se proteger dos espinhos, ganham apliques bordados. Todos os objetos possuíam alguma decoração, das panelas aos fuzis. Os cangaceiros se tornam autênticos fashionistas, e quase todo o trabalho de costuras e bordados eram feitos pelos homens. Uma famosa foto tirada por Benjamin Abrahão em 1936 mostra Lampião e Luis Pedro bordando e costurando com uma maquina Singer, em absoluta concentração, ja que os adornos também determinavam o posto ocupado na hierarquia do bando.

 
Bolsa de lona customizada com apliques e bordados e vestimenta feminina.
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Dada foi a única mulher cangaceira a pegar em armas. Corisco lhe ensinou todo o manejo de armas, e em 1939, quando ele teve as duas mãos metralhadas em um confronto com os “macacos”, Dada se tornou seu braço armado. Em 1940 Getulio Vargas anistiou os cangaceiros, e Corisco resolveu se entregar, mas antes disso foi morto em uma emboscada, e Dada ferida gravemente na perna, que teve que ser amputada. Morreu em Salvador em 1994, aclamada como um símbolo feminino do Nordeste. A morte de Corisco foi o fim do cangaço.

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