terça-feira, 20 de outubro de 2026

 

Quermesse em Viçosa


Era uma vez, na cidade interiorana de Viçosa, em Alagoas, nordeste brasileiro... deveria começar assim a minha estorinha.... na verdade, uma estória de amor nos idos anos 40 na cidade de meus pais, avós e bisavós. Nossa cidade sempre teve vales verdes, rios transparentes, locais para pesca e passeios, grandes reservas de matas, mas o que mais representava nossa cidade era o fervilhar cultural, principalmente a literatura e o folclore regionais : pastoril, reisado e guerreiro, durante o período natalino e no período junino; as quermesse da igreja, comandadas pelo Padre Antônio eram o que realmente mexia com a cidade.

1942 foi um ano especial em minha vida; estava com 17 anos e terminando o curso normal. Meu sonho, como o de muitas moças na época, era me tornar Professora diplomada; adorava criança e pretendia lecionar por muitos anos, alfabetizando e ajudando na evolução de minha cidade.

Nesse lugar de onde vim, a moça tinha que preservar o “tesouro”, o “precioso” até o casamento, e isso era difícil, porém, pela rigidez da época e apelos morais, casávamos virgens.

Durante as festas juninas daquele ano, nossa comunidade se envolveu com os preparativos, de uma forma jamais vista, pois era preciso arrecadar dinheiro para a restauração da igreja da matriz de Nossa Senhora do Amparo, padroeira da cidade.

Padre Antônio, durante suas missas, aproveitava o sermão para falar sobre os preparativos da quermesse, bingo, concurso de dança, de beleza, pescarias e tudo mais que a cidade tivesse direito para incrementar a festa, atraindo visitantes das redondezas e da capital.

Todos da cidade estavam envolvidos e fiquei com a turma jovem. Passamos mais de 40 dias para organizar tudo e na cidade só se falava nisso. O Prefeito mandou vim da capital um som amplificado para a praça e com ele vieram os técnicos da companhia energética. Foi aí que conheci o Luís... meu Deus!!!! Que homem lindo, que olhos! Nunca tinha visto um olho daquela cor. Os olhos do Luís eram cor-de-azeitona, cintilantes, lindos! Fiquei a olhar de longe.

No domingo da festa, tudo praparado, arrumado. Cheguei com minnhas amigas logo cedo e esperamos o sorteio para saber em qual barraca cada uma iria ficar. Fui sorteada para a barraca da maçã-do-amor. Minha amiga Vera ficou com a Sandra na barraca do beijo, mas como era por uma boa causa, foram com alegria.

No final da tarde, Vera teve uma febre repentina e precisavam substituí-la na barraca-do-beijo, mas por quem? Por mim! Por mim? Meu Deus, por que eu, no meio de tantas moças? Como iria beijar? Jamais havia beijado na boca, nem sequer tive namorado até então. Rezei uma Ave-Maria e fui para a barraca, já com as mãos geladas de nervoso e pedindo a Deus para que, se precisasse beijar na boca de algum rapaz, minha mãe não ficasse sabendo.

A fila andava na barraca-do-beijo e os meninos só conseguiam de mim, nada além de beijo no rosto ou na testa, muito respeitoso, pois todos me conheciam e não ficava bem sair “beijando por ai”. De repente, o que vi lá no final da fila? O Luís, o rapaz da capital da companhia energética, o rapaz de olhos cor-de-azeitona. Deus, Deus me ajude... pensei apavorada com a idéia de estar a milímetros daquele rosto.

Já contava com 52 rapazes que passaram na barraca e todos reclamavam de como era difícil conseguir alguma coisa comigo. Na vez do Luís, dei nos ombros e me fiz de tranqüila, dona da situação, mas quando senti seu rosto perto do meu, seu hálito, seu calor e fitei seus olhos nos meus, não consegui fazer nada a não ser fechar os olhos. Ele não se fez de rogado e tascou um beijo na minha boca que quase desmaiei. Deus no céu, será que alguém tinha visto? Alguém iria contar para minha mãe? Para minha surpresa, parecia que ninguém havia notado, a não ser por minha cara rubra e quente; tudo parecia normal.

Luís ficou me olhando de longe por toda a festa, observando cada passo meu, tomando conta e continuou a olhar e a tomar conta há exatos 50 anos, o tempo que temos de casados, tempo de amor e cumplicidade, o amor que começou com uma festa de quermesse no inteiror.

Simone Lessa

Meu Pai era uma "otoridade"



Ele era um "deus" pra os colegas e respeitado por magistrados e serventuários do Fórum, onde exerceu, com probidade e diligência, seu mister de “advugado”, meu digníssimo pai! Durante incontáveis anos, foi admirado como um eminente inspirado tribuno da época de Roma. A par dessas virtudes que emprestava à sua apurada advocacia, conseguiu a fama de homem que sempre se ouve com correção e compostura. Ninguém sequer, sequer, respirava alto quando ele falava. Por aí você vê!!

O homem era alto, forte e a cara mais parecia de um touro bravo. Metia medo até em “poliça” ! Branco feito vela, tinha um bigode que fazia curva indecente até as narinas. Quando ia fazer discurso ou enfrentar um júri, vestia seus grossos e brancos ternos vindos de Recife, engomados por dona Malvina, ex-escrava, mas que ainda trabalhava como uma, coitada.

Era muito medroso, não, medroso maneira de dizer, era comedido! Cumprimentava sem grandes entusiasmos até os mais chegados. A postura grave que afetava, entretanto, não o impedia de ser homem educado e sem nada de arrogância.

Tendo alcançado todas as glórias que a profissão de “advugado” poderia lhe proporcionar, cansou-se da militância e decidiu valer-se do vasto conhecimento que acumulou na constante leitura dos compêndios e nas incessantes leituras e brigas jurídicas para se dedicar à literatura.

Para desgosto e má querença de muitos, ele que não tinha mais nada a perder no alto de seus 80 anos, resolveu escrever sobre a “sociedade mutável da capital alagoana”...Isso nos anos 30!!!

Como ele era afeito a “olhar” o povo que passava na rua...indo em direção à ladeira do Brito, no centro da cidade, aproveitava pra fazer anotações, por vezes, indecorosas das pessoas...tudo isso num livro vermelho, com capa de veludo e letras douradas.

Ele sempre se referia a dona Marina, a mulher do homem da farmácia “Flor de Lis”, como a “devassa”...ninguém acreditava, claro, afinal a mulher era nascida e criada na cidade de Viçosa, veio desde cedo encaminhada pela família na religiosidade. Meu pai porém, estava certo de que mais cedo ou mais tarde, a pegaria “no pecado”.

Outra que não escapava de suas olhadas, era Silvinha, a afilhada do padre Dionício. Era moiçola alta, bonita e “sonsa”...dizia ele.

O uso excessivo dos neurônios, por parte desse incansável homem de idéias, acarretou-lhe um inevitável desgaste que se foi acentuando com o avançar dos anos e vinha se manifestando há algum tempo por meio de pequenos lapsos e um ou outro rompante detectados pelos mais chegados.

Por muitas vezes esquecera de dar a descarga no vaso sanitário, errava a porta dos quartos e confundia o nome das cunhadas e dos sobrinhos, quando não dos próprios irmãos. Mas, uma coisa ele não trocava e nem bagunçava: a vida alheia!

Era incrível como ele não trocava quem era amante de quem, quem era virgem e quem não havia casado virgem...”meu Jesus...ele era terrível!!!”

O pároco, Padre Dionício, era um dos poucos que escapavam da “lista imprópria", por se tratar de “homem santo, de Deus, e acima de qualquer suspeita”, o que não era no todo verdade, visto que era chegado a uma cachaça de alambique que lhe trançavas as pernas...mas, essa, não se comentava.

Realmente não havia no bairro quem mais soubesse “das coisas” que ele. Qualquer um que chegasse, era imediatamente levado a sua presença pra as devidas apresentações e relação do “curriculum” do camarada.

Nossa casa tinha 10 quartos, pois além de serem muitos em casa, sempre apareciam alguns primos, tias e agregados. Um dia, a garotada se juntou na sala de visitas, jogando e troçando, animada com uma novidade: um rádio! Enquanto se divertiam com os sobressaltos que causava a mudança das músicas, muitos ficavam de olho nas crianças, mas meu pai ficava sentado na porta de casa, pernas cruzadas, caneca de café na mão esquerda, e mão direita com um lápis, muito bem apontado e pronto pra entrar me ação assim que alguma “vítima” sonhasse sair de casa. Invariavelmente, minhas tias aproveitaram para fazer café e bolo de fubá.

Crianças e mulheres já nos quartos, os irmãos foram conferir se as portas estavam fechadas, recolher algumas coisas no quintal e no jardim, mas meu pai estava estranhamente imóvel, com os olhos bem abertos. Olhos grandes, interrogadores que iam direto na casa de Padre Dionísio, de onde Silvinha saia apressadamente, com uma roupa tão justa que mal podia andar. Entrou ligeirinho num cabriolé que subiu em direção à Bebedouro. “O que a Silvinha estaria indo faze àquela hora da noite? E sozinha??” Ficava ele ali a especular...

- Seu Domício, o senhor vai ficar aí? Não vai se recolher?

- Não meu genro, fico aqui mais um par de horas tomando uma fresca. Boa noite!

- Boa noite, sogro!

Meu pai ficou ali, todo enrolado numa manta grossa, no escuro até às 3h...frio de rachar, mas ele ali, como um soldado em campana. E a Silvinha, será que voltou pra casa do padre? Ele não viu. Com essa angústia no peito, foi dormir, já se arrastando de tanto sono.

Já no quarto, viu sua mulher mais enrolada nos cobertores que uma pamonha. Tentou não acordá-la, mas não teve jeito.

- Angélica, mulher, você nem sabe o que vi. Falou meu pai espantando minha mãe, coitada, dormindo meio que acordada a espera dele...

- Hem? O que houve, Domício? Fala!

- Sabe a Silvinha?

- Claro, meu velho! O que tem a moça?

- Deus em livre pelos maus pensamentos, você bem sabe que não gosto de julgar as pessoas, mas a moça não voltou pra dormir até agora a pouco, e já são 3h da madrugada!

- Deus do céu! O que essa moça estará fazendo? O padre, coitado, saberá? Bem, vamos dormir, meu velho, amanhã saberemos. Foram dormir.

Logo cedo, sem muito a fazer, mas muito a especular, meu pai saiu de casa na intenção de saber do paradeiro de Silvinha, que para ele, não seria mais “moça” de jeito nenhum...afinal, ficar nas ruas até às 3h da madrugada não era coisa de moça de família.

Sua primeira parada foi no açougue "São João". Meu pai começou a observar que o açougue era um local que poderia lhe dar mais informações de um bairro que um salão de beleza. Era incrível como as pessoas “soltavam” informações de seu dia-a-dia sem nem perceberem...num açougue. Lá estava ele, olhando uma peça de carneiro estirada no balcão, quando entrou dona Joana.

- Bom dia a todos!

- Bom dia! Como a senhora está? Soube que esteve doente. Perguntou meu pai, sem perder tempo.

- Realmente, Seu Domício, minha saúde não anda bem. Mas tenho ajuda de amigas, como sua mulher. Sempre que pode, dona Angélica vai à minha casa e faz um chá. Dê um abraço nela por mim.

Virou-se rapidinho e pediu um pedaço de alcatra pra o almoço, rapidinho...e se foi!

“Bem ainda poderão aparecer alguns clientes”. Com isso na cabeça, meu pai viu “desfilar” no açougue quase todas as donas de casa do bairro onde morávamos, mas ninguém dava uma dica do paradeiro de Silvinha.

Ao voltar pra casa, meu pai quase esbarrou com padre Dionísio, que olhou pra ele com espanto.

- Bom dia, padre!

- Como vai, meu velho amigo? Indo pra casa almoçar?

Num relance, meu pai pensou em perguntar se ele sabia se sua afilhada Silvinha, estivera na rua até altas horas da madrugada, mas se controlou.

- Sim, claro, e o senhor?

- Estou indo novamente almoçar na casa de minha irmã, pois Silvinha não acordou bem e está dormindo, coitada. Acho que é gripe. Deixei até um chá de alho com mel de abelha pra ela...estou indo...Deus te abençoe!

“Doente? Silvinha? Meu Deus essa moça sai de madrugada, dorme fora e o padre nem desconfia.”

Correndo, de acordo com suas pernas e idade, claro, meu pai chegou cedo pra o almoço e tarde pra o que tinha a dizer a minha mãe:

- Angélica, mulher do céu!!

- O que foi, homem? Senta, você tá pálido.

- Encontrei com o padre, e você imagina que ele nem desconfia que Silvinha dormiu fora? E ainda acha que a danada tá gripada? Nem fez almoço pro coitado?

- Fala sério, meu velho?

- Não estou te dizendo. Como uma moça faz isso? Estou sem esperanças neste mundo...vou deitar...perdi a fome!

Minha mãe coava o café da janta, quando meu pai chegou perto dela.

- Angélica, vou continuar meu livro, mas tenho que observar mais o povo daqui. Silvinha é uma!!

- Meu velho, esqueça isso. Ela deve ter saído com algum rapaz..coisas da idade!

- Mas, Angélica...

- Esquece e senta, vai! Sabia que o senhor não almoçou, hoje? Toma um café reforçado. Dizendo isso, minha mãe foi logo colocando num prato de alumínio: uma porção boa de cuscuz, um pedaço bom de carne assada e uma banda de pão fracês torrado.

Comemos em silêncio.

Lá pelas tantas, como de costume, era minha vez de fechar as janelas e recolher as coisas do quintal e do jardim, quando olhei pra porta de entrada, lá estava meu pai, com a cadeira na mão, pronto pra se colocar “a postos”.

- Meu pai, olha essa friagem..vamos deitar?

- Nada...vou ficar aqui tomando fresca mais uma hora e anotar mais coisas no meu “diário do povo da capital"...pode ir...boa noite!!!

Dito isso, nada a fazer senão obedecer, afinal, como contestar o seu Domício, não é?

Meu pai estava anotando algumas coisas no caderno e viu várias pessoas indo em direção à praça do Palácio, onde fica o governador. Mas, já estava ficando tarde..acho que passava de 23h. Ele olhava e anotava, olhava e anotava...quando deu conta, puxou seu relógio de algibeira e ficou espantado como as horas passaram rápido àquela noite.

Já estava tentando desistir da idéia de olhar a vida de Silvinha," a coitada...vai ver, estava com algo pra resolver" ...de repente, ao levantar seus pensamentos e fixar os olhos na rua de cima, vou dona Marina passar “na toda”. Logo atrás dela, padre Dionísio...

“Deus do céu, o mundo está perdido!”, pensou meu pai, já com as pernas trêmulas, pensando no que o padre, o santo padre, seu amigo, estava fazendo na rua àquela hora com a “devassa” da dona Marina, mulher do dono da farmácia e que ele tinha na sua lista como “das não mais respeitáveis”.

“Sinto-me traído... meu amigo... padre, ainda por cima ....”

“Santo Cristo, vou deitar...” E pensando em tudo que parecia ser, foi dormir, ou melhor, deitar-se!

Os dias que se passaram e o que se via no semblante de meu pai era desolamento, uma tristeza sem fim. Minha mãe falou que desde a noite que ele avistara o padre na rua altas horas da noite, que havia ficado assim, pensativo e triste!

O dia amanheceu lindo naquele 27 de Agosto, dia de Nossa Senhora dos Prazeres, padroeira da nossa cidade, e como de costume, as roupas estavam logo cedo passadas e engomadas na cama de cada um. O terno branco de meu pai, era muito bonito, de linho...e ele sempre ficava lá na frente na procissão, perto da santa e das autoridades eclesiásticas.

No entanto, naquele 27 de Agosto de 1930, meu pai acordou dizendo que não iria à procissão de forma alguma, principalmente depois das desconfianças. Foi um reboliço em casa, ninguém entendi o porquê, visto que ele não falara o motivo real, a não ser a minha mãe.

Bem, fomos e na hora marcada, 7h estávamos todos lá na rua sol, bem enfrente à catedral. As freiras organizavam tudo, os colégios traziam seus alunos, os padres, os seminaristas... Tudo preparado!

Olhamos em volta e lá no fundo, avistamos meu pai com cara emburrada com minha mãe a tira-colo. Ao menos não faltaria a um ato religiosa daquela grandeza, que há séculos fazia parte da família alagoana.

A procissão transcorreu normalmente, perfilando as ruas centrais de Maceió: rua do Sol, praça do Governo, rua Augusta, rua do Convento de Savina Petrilli, praça Marechal Deodoro, praça União dos Palmares, rua do Imperador D. Pedro II e por fim, a catedral às 10h.

Meu pai, apesar de seus 80 anos, estava bem de saúde, e fez todo percurso sem reclamar, apenas parou um pouco na praça Marechal Deodoro pra tomar água na casa de uns conhecidos.

Todos sabiam que dia da padroeira, era o dia mais importante na capital, logo mais à noite, haveria quermesses, vaquejadas no parque da pecuária, carrossel na praça da faculdade de medicina e discursos, muitos discursos, entrega de homenagens a políticos e mais algumas coisas que inventavam.

Quando todos estávamos indo pra casa, depois da missa, um vereador amigo de meu pai se aproximou e disse a toda família:

- Meu querido e ilustre amigo, Domício. É com muita honra que venho em nome da Câmera Municipal de Maceió, fazer-lhe o convite de comparecer logo mais às 20h no palácio Floriano Peixoto, junto com sua família, claro, para a entrega de alguns prêmios, diplomas e honrarias a nossos correligionários.

- Devo agradecer pela deferência, mas vou agradecer, pois já com 80 anos e depois de toda essa manhã corrida, não tenho mais condições de festas à noite.

Vimos que o vereador, ficou surpreso, pois meu pai depois que se afastara das tribunas, era assíduo nestes eventos.

O vereador correu em socorro ao padre...que puxado pelo braço, lhe fez uma súplica:

- Meu velho e querido amigo, as comemorações do dia de nossa padroeira sem a santa e sem sua presença, de nada valeriam, não é mesmo, nobre vereador?

- Claro, seu Domício. Não aceitaremos um “não” como resposta a não ser que esteja doente...mas, estás muito bem!! Até logo mais às 20h!

Os dois pareciam tramar algo, mas meu pai não desconfiou.

Como nossos irmãos mais novos queriam ir ao parque da pecuária, fui tomando conta deles, e saímos às 18h de casa. Meu outro irmão e meu genro, foram com suas mulheres à praça da faculdade, comer pipoca e andar no carrossel, claro. Meu pai e minha mãe ficaram com a parte “chata” do programa.

Bem, por volta de 20h meus pais estavam no salão principal do palácio do governo. Muitas autoridades presentes, inclusive o prefeito Jaime de Altavila e o governador Hermilo de Freitas Melro, com suas esposas. Diversos vereadores e deputados vieram participar da entrega dos diplomas e honrarias aos escolhidos daquele ano.

Claro que aquela “reunião” não era aberta a toda população, mas naquele ano, o governador mandou abrir os salões do palácio, pois tinha uma atração especial para a “nata” da sociedade alagoana: a apresentação do cantor do Orlando Silva, que veio do Rio de Janeiro dois dias antes especialmente para o dia de nossa padroeira.

Diante de tamanha festa, meu pai tentava relaxar. Começou a circular nos salões e observou que muitos de nosso bairro, estavam presentes. Na praça em frente, a Praça do Palácio do Governo, estava repleta de populares, autoridades eclesiásticas e da política. As mulheres tiraram de seus guarda-roupas seus melhores vestidos e chapéus, e os homens, seus engomados ternos. Havia muitas barracas armadas com comidas típicas, brincadeiras, uma verdadeira quermesse.

Como era esperado, o prefeito e o governador foram ao palanque armado defronte ao palácio e começaram a chamar as pessoas homenageadas. Nesta hora, muitos se distraiam com outras coisas, e meus pais sentaram num banco da praça e ficaram ali a observar os vizinhos.

Os prêmios estavam sendo entregues... “ A medalha Nossa Senhora dos Prazeres vai para o Major Eufrázio Noberto de Lima, Comandante do Batalhão....” e agora, a “Medalha das 3 Lagoas vai para o Prefeito de Palmeira dos Índios, o escritor e amigo, Graciliano Ramos....”...e aquela lista parecia não ter mais fim.

Foi pedido silêncio para os que na praça estavam, pois o governador iria entregar o maior título da noite. Nisso, meus pais ficaram de pé a observar quem seria o “gracejado”. Aliás, só eles não, todos queriam saber quem seria a figura. Alguns apostavam no bispo recém-chegado,mas não era ele,não! A expectativa tomou conta da multidão.

Em determinado momento, o governador disse:

- E agora, nosso último e não menos importante prêmio da noite. Em reconhecimento aos inúmeros feitos jurídicos, legados de cidadania, prestação de serviço a nosso governo, peça de representação sempre firme e contundente em nossos fóruns; chamo aqui para receber o título de Comendador, meu amigo da faculdade de direito de Recife, pai, esposo, avô e filho ilustre de Maceió: Domício Barros de Alcântara Machado!!!

Todos os olhos se voltaram para meu pai, que de branco, tornou-se branco-papel, tamanha emoção que tomou conta de sua alma. Todos lhe davam os parabéns e ele foi literalmente empurrado para o palanque.

Em sua vida de “advugado”, meu pai jamais imaginou receber tamanha homenagem... Foi ao palanque e ouviram atentamente uma moça lendo toda estória de sua vida, com as querelas importantes, do governo e dos mais humildes, das defesas internacionais (sabia o latim e o francês fluentemente), e de sua estória familiar, tudo com muitos detalhes, aliás, coisas que ela achava, só a família sabia.

Ao final do discurso, ele recebeu a comenda pelo governador, agradeceu e viu, lá do palanque, a sua família inteira reunida. Todos nós sabíamos que ele seria homenageado, só não poderíamos deixá-lo desconfiado. Fomos a outros locais de mentirinha e na hora combinada, estávamos reunidos na praça: filhos, filhas, netos e minha mãe, claro!

Nenhuma pessoa da praça e do palácio, do governador ao mais humilde dos devotos de Nossa Senhora dos Prazeres, deixou de dar os parabéns a meu pai. Ao voltar pra casa, com aquela enorme condecoração com 3 faixas (azul, branca e vermelha – simbolizando as cores do Estado) que abrilhantava ainda mais seu terno branco de linho, ele lembrou de perguntar a minha mãe:

- Me diz uma coisa Angélica,foi você quem deu todas aquelas informações sobre minha vida? Sim, porque algumas coisas ali são muito de nosso família.

- Meu velho, dei algumas informações, mas seus anjos da guarda foram na verdade duas outras pessoas: dona Marina, a mulher do dono da farmácia e a Silvinha , a afilhada do padre.

- Meu Deus...então quer dizer que eu estava...

- Isso mesmo!!! Você pensando mal das moças e elas varando a madrugada pesquisando no fórum sobre sua vida pra o dia de hoje.

Ninguém conseguiu prender o riso e todos ficaram felizes por meu pai não ter continuado a tal pesquisa para o livro: “Sociedade Mutável da Capital Alagoana”.

Simone Lessa

terça-feira, 9 de abril de 2019

O Mundo Sombrio de Zé HQ - por Eurico Santos




Fala, galera! Finalmente está chegando O Mundo Sombrio de "Zé", HQ escrita por mim, e você pode dar seu apoio e ajudá-la a acontecer. Acessa o link abaixo e veja como apoiar!
Prepare-se para uma história épica com um rei decaído do (sub)mundo que, aliado a sua fiel sombra e uma menina completamente deslocada, parte por meio dos territórios mitológicos dos mundos das sombras em busca de sua coroa!
Eurico Santos

O mundo sombrio de Zé – livro I: o que

Em mais uma parceria, o ilustrador Rafael Sam e o roteirista Eurico Santos se preparam para publicar a história em quadrinhos O mundo sombrio de Zé, uma aventura por um submundo sombrio, cheio de aventura e muito humor. A dupla fala que a história possui uma pegada gótica, lembrando muito dos clássicos do cinema noir e dos filmes do diretor americano Tim Burton (a noiva cadáver e os dois filmes de Alice no País das Maravilhas).“Trata-se de uma espécie de epopeia, em que os principais personagens terão de passar por vários desafios contra criaturas de várias mitologias diferentes para chegar ao seu destino. Tudo isso dentro de uma atmosfera um tanto dark, mas sem perder as cores e o humor”, enfatizou Eurico.
A história contará a história de um rei do submundo fantástico (o Zé) e de como ele perde seu título, precisando da ajuda de uma menina deslocada na sociedade chamada Malvina para ajudá-lo a reaver seu posto. “Não deixa de ser também uma história de autoconhecimento”, frisou Rafael. “No final, essa jornada trará bem mais do que eles esperam!”, concluiu.
No mês de abril, a dupla lançará o projeto no Catarse, site de financiamento coletivo com o intuito de conseguir os recursos para publicação da primeira edição de O mundo sombrio de Zé. “O Catarse é uma ótima oportunidade para os artistas, pois além de propiciar um teste de recepção adiantado do público, oferece às pessoas a chance de conhecer e apoiar o projeto de um modo único, pois elas têm a chance de já conferir as primeiras páginas, de adquirir a história por um preço promocional e de receber brindes exclusivos em relação à compra nas bancas”, esclarece Rafael.
No Catarse, as pessoas interessadas acessam o site e escolhem uma das recompensas, que são kits especiais com brindes feitos pelos artistas para irem junto com a história em quadrinhos, sendo que tudo isso é entregue na casa dos apoiadores.
Não é a primeira vez que Eurico Santos e Rafael Sam trabalham juntos. Ano passado, Eurico escreveu os argumentos do projeto Black Desert, criado e desenvolvido por Rafael Sam, lançado na Comic Con Experience 2018, em São Paulo. “O trabalho tem dado certo, pois é um dos casos em que o texto casa perfeitamente com a arte, além, é claro, da sintonia no modo de produzir”, afirma Eurico. A parceria ainda pretende dar mais dois frutos. “O segundo livro de Black Desert já está em produção e o Eurico também fornece o argumento nesse. Além do mais, ele está com um projeto de história autoral que contará com minha arte”, fecha Rafael.
O mundo sombrio de Zé contará com 40 páginas, todas coloridas, sendo impresso no formato 21 x 25 cm, em papel couché fosco no corpo do livro e brilhante na capa.
A previsão de lançamento será após o fechamento da campanha no Catarse, que terá início no mês de abril. 



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Calçamento com pés de moleque? Por Conheça Minas





Calçamento com pés de moleque?
As ruas de nossas cidades antigamente eram calçadas com pedras brutas. Esse calçamento recebeu o nome de "Pé de Moleque".
Esse tipo de calçamento era comum na Europa nos tempos antigos e foi introduzido pelos Portugueses no tempo do Brasil Colônia. As pedras vinham de Portugal, em navios e as ruas das cidades litorâneas como Rio de Janeiro, Paraty, Salvador, Porto Seguro, Santos, etc., receberam esse tipo de pavimentação. Chegavam em navios e eram levadas paras os seus destinos em carros de bois.
O ouro de Minas Gerais seguia para o porto de Paraty/RJ em carruagens, mulas, burros e em sua maioria, em carros de bois. Deixavam o ouro e traziam pedras para calçamento, na volta. As ruas de Paraty/RJ foram quase todas calçadas com essas pedras vindas de Portugal.
Como as cidades e vilas mineiras eram muito distantes para transportar tantas pedras, optaram por calçar as suas ruas com as pedras existentes nas regiões próximas às mesmas, que existiam em abundância, em beiras de rios, por exemplo. Na região de Ouro Preto, a pedra sabão era a mais comum e foi a mais usada nos calçamentos das ruas da cidade. O corte das pedras era totalmente rústico, feito a base da picareta, pelos escravos e em boa parte, nem eram cortadas, eram colocadas nas ruas da forma que eram retiradas.
Os trabalhos de calçamentos eram orientados por mestres pedreiros e executados pelos escravos e também por presos das cadeias próximas, que eram obrigados a trabalhar de graça, sob forte vigilância e acorrentados pelos pés. Eles preparavam a rua na enxada e iam postando pedra por pedra, uma ao lado da outra.
Os filhos desses escravos, que eram costumeiramente chamados de "moleques" iam em seguida esparramando terra arenosa e acertando as pedras com os pés. Não eram pedras uniformes e nem certinhas, porém o calçamento ficava bom, evitava o barro nos tempos de chuva e poeira na estiagem.
É por isso que esse tipo de calçamento se chama "Pé de moleque" embora muita gente diga que o nome é porque essas pedras lembram muito a cor do famoso doce de amendoim que conhecemos, o pé de moleque. Mas a que tudo indica, o surgimento desse doce é bem posterior ao surgimento do nome desse tipo de calçamento, portanto, não faz sentido associar a pedra ao doce, até porque moleque, sempre era usado para chamar os filhos dos escravos.
No final do século XIX, já no fim do Brasil Imperial, as cidades começaram uma era de modernização e urbanização que acompanhava o desenvolvimento das cidades Europeias, buscando melhorar a vida de seus habitantes.
Com essa visão de modernizar as cidades, os calçamentos em pés de moleques começaram a ser retirados e colocados no lugar paralelepípedos, que são pedras bem trabalhadas, mais certinhas, que evitavam os constantes tropeços que o calçamento em pés de moleques causava e por dar um visual mais bonito às ruas, já que eram lisas e uniformes.
E assim foi na maioria das cidades históricas mineiras e do Brasil também. Poucas ruas de nossas cidades históricas mantiveram o calçamento original, sendo substituídos pelos paralelepípedos do final do século XIX.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

De pedreiro a Uber: o malabarismo para viver com os salários do magistério, por Mônica Manir


"Minha filha, aqui a gente dá uns pulos.” Assim, Cícero Ferreira de Lima assume seu malabarismo para fechar as contas do mês sendo professor de Educação Física na EE Alberto Caldeira, em Farias, distrito de Guanhães (MG).
Quando não está dando aula, ele assenta pisos de cerâmica, chapisca paredes e dá o acabamento com reboco em casas da cidade. Apareceu um problema com a bomba hidráulica ou o chuveiro encrencou? Lá está Cícero. O professor também faz corridas com seu Corsa até Guanhães, a 45 quilômetros por estrada de terra, levando e trazendo seus conterrâneos. Cobra 100 reais pelo trajeto total. “Falar pra você que compensa esse valor, compensa não”, diz. “Aqui a gasolina é cara, a estrada de chão não presta, faço mais para ajudar quem precisa.” ​
O guanhanense fala como se necessitado não fosse. Mas, aos 40 anos, tem apenas um cargo como contratado. São 17 aulas por semana, pelas quais ganha 1,6 mil reais. Professor há quase uma década, ele afirma que, financeiramente, seria melhor se concentrar na função de pedreiro, ofício que aprendeu do pai. “Mas eu adoro estar com os meninos na escola, é a melhor coisa que existe”, afirma.
A mulher, Danúbia da Costa Teixeira, 34 anos, leciona na mesma instituição, mas como concursada, e nos períodos da manhã e da noite. Suas aulas de português lhe rendem 2 mil reais, que são pagos em três parcelas ao longo do mês —​prática exercida por Minas Gerais desde 2016 para remunerar os servidores públicos. ​
Acontece que a soma salarial dos dois professores não garante o sustento do casal nem dos filhos, de 11 e 4 anos. Então, quando aparece, Danúbia faz palestra para o Sebrae sobre a importância da argumentação para aumentar as vendas, pelas quais recebe em média 150 reais. Também corrige redações do Enem e presta assessoria em trabalhos de conclusão de curso.
De olho numa melhor formação, ela faz doutorado em Linguística Teórico-Descritiva na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte. Como o governo cortou as bolsas da Capes, Danúbia vende bananas verdes fritas na faculdade para custear a viagem e aceita a guarida dos professores para dormir na casa deles, na capital. “Quase todo colega meu da escola pública faz alguma coisa por fora, vende cosméticos, lingerie, dá aula particular de violão ou de pintura”, lembra a mineira. ​
A jornada do casal reflete o jeito que os educadores brasileiros encontram para sobreviver aos contratos precários e à baixa remuneração da profissão. Para José Marcelino de Rezende Pinto, professor da Universidade de São Paulo (USP) com experiência em política e gestão educacional, o problema remonta, na verdade, ao século 19.
De fato, em 1891, o médico, jornalista e historiador José Ricardo Pires de Almeida já denunciava “a função mal remunerada que não encontra na opinião pública a consideração a que tem direito muito mais que as outras”. O professor, nas palavras de Almeida, substituía em certa medida o pai e a mãe de família, inaptos para cumprir completamente seu dever social. Deveria ganhar mais, portanto. ​
A questão, porém, não se resolveu. “Vivemos uma crise crônica de remuneração”, afirma Rezende. Àqueles que desejam puxar o debate para mais perto, o sociólogo Ricardo Antunes, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aponta o período da ditadura militar como um divisor de águas. “A ditadura, no seu conjunto, tinha a ideia de incentivar as escolas privadas, o que debilitou as chamadas escolas de aplicação, que ensaiavam um projeto público mais qualitativo”, afirma. Segundo Antunes, os governos que se sucederam, já no período democrático, não enfatizaram uma política de recuperação do que se perdeu em termos de excelência. ​

ASSENTANDO O PISO

Se há conquistas a apontar é a Lei nº 11.738, de 2008, que instituiu o Piso Salarial Profissional Nacional e estipulou um valor abaixo do qual nenhum professor deve receber. Em 2009, ele era de 950 reais; hoje, para uma jornada de 40 horas por semana, perfaz brutos 2.455 reais.
“Mas atualmente apenas 66% dos municípios cumprem o piso e somente 14 estados remuneram o mínimo previsto em lei”, diz Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).
Ela explica que muitas cidades de pequeno porte têm dificuldade de arrecadação, um dos motivos para não pagar o valor determinado para o início da carreira. Já nos grandes centros urbanos o desafio é outro: em geral, cumpre-se o piso, mas ele está muito aquém de atender a condições de vida diante dos custos elevados com moradia, transporte, alimentação e acesso à cultura. Anna frisa que é preciso garantir a valorização gradual dos salários e a incorporação das gratificações, que, segundo ela, são muitas vezes utilizadas para não aumentar o salário-base. ​
O professor de Matemática e Física Alexandre Gonçalo Santana, 47 anos, mora no Rio de Janeiro, segunda maior cidade do país e capital de um estado cuja calamidade financeira está diretamente relacionada com a precariedade do professorado. Dono de apenas uma matrícula, Santana conseguia se manter por meio das horas extras que fazia. “Eu fazia dobra nas escolas, tinha isso como um salário que compreendia todos os meus custos, até alguns passeios”, lembra. Mas, há um ano, ele perdeu essas horas extras —que não são incorporadas ao salário na aposentadoria— e não conseguiu mais pagar suas despesas com a remuneração de docente no CIEP 230 Manoel Malaquias Gurgel da Silva, em Nilópolis.
Seus olhos se voltaram para o Uber. Alexandre vendeu o carro e comprou outro adaptado para gás, combustível mais econômico. Hoje ele roda no contraturno das três aulas semanais e não descansa nos fins de semana. Acrescentou cerca de 2 mil reais das corridas ao salário de 4 mil reais, além de 600 reais por mês com as três aulas por semana que dá a presos do Complexo de Bangu.
Estudo do Todos pela Educação mostra que 29% dos 2 mil entrevistados têm ocupações extras para complementar a renda. Desses, 9% focam em atividades educacionais, como Danúbia, 5% se voltam ao comércio, como os colegas de Danúbia, e 3% prestam serviços, como Cícero e Alexandre.
A baixa remuneração docente impacta também na escolha que os jovens mais bem preparados fazem para entrar na carreira. “A atratividade nunca foi tão baixa se comparada a outras profissões”, diz Andreza Barbosa, professora da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Ela realizou em 2018 uma pesquisa com professores da rede pública que atuam na região de Piracicaba, no interior paulista, onde o Índice de Desenvolvimento Humano é alto. Dos 464 professores entrevistados, 15% possuíam outra fonte de renda.

“Os estudantes têm optado por carreiras que gozam de maior prestígio e valorização social e financeira”, afirma. Andreza reconhece a heterogeneidade dessa situação. Ela lembra que há estados em que o problema é menor, e por vezes dentro do próprio estado há discrepâncias consideráveis entre os municípios.
O professor de Educação Infantil Evandro Tortora, 30 anos, não demorou a perceber esse cenário. Em 2014, na sua cidade natal de Pederneiras (SP), ele ganhava 1,5 mil reais por 32 horas semanais. Cerca de 230 quilômetros adiante, em Campinas, passou a receber pela mesma jornada 4.900 reais (somado o vale alimentação) depois que passou a atuar no CEI Dr. Claudio de Souza Novaes.
“Aqui a gente não precisa dobrar período e somos remunerados para fazer cursos de formação”, diz, já instalado em um apartamento alugado, onde mora sozinho. O salário lhe permite bancar viagens à Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, onde faz doutorado.​

EQUIPARAÇÃO DE SALÁRIOS​

O Relatório do 2º Ciclo de Monitoramento das Metas do Plano Nacional de Educação (PNE) 2018, elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostra uma queda na diferença no salário de professor e de outros profissionais de mesma escolaridade. De 65% em 2012 foi para 75% em 2017. Ou seja: era 35% menor, e agora seria 25% inferior. “Isso não significa que houve melhora efetiva na remuneração docente, mas, sim, que a queda nas demais profissões foi maior nesse meio tempo”, afirma Rezende.
O PNE estabelece na meta 17 a necessidade de equiparar a remuneração docente com a de outros profissionais dos quais também se exige formação em nível superior. A meta tem uma data que deveria ser atingida até 2020, ao final do sexto ano de vigência do plano. Para chegar a esse patamar de equiparação, especialistas em educação pedem quase em uníssono que se revogue a PEC 241
Aprovada em 2016, ela estabelece um limite do governo federal para gastos primários (aqueles com saúde, educação, assistência social, cultura etc.). A fórmula passa a valer a partir de 2018 e vai até 2026.
Quem não respeitar o teto ficará impedido de, no ano seguinte, dar aumento salarial, contratar pessoal e estabelecer novas despesas. “Essa PEC impossibilita que os recursos e os salários sejam de maior monta e que ocorra uma efetiva reestruturação do setor público”, diz o sociólogo Ricardo Antunes, da Unicamp. Para ele, seria preciso cortar em áreas “irrelevantes” do serviço público e reorganizar completamente esse orçamento, sob risco de daqui a uma década a situação da escola pública estar ainda mais precarizada.

Fora do alcance da PEC 241, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) é apontado como um ganho, que dirime as desigualdades. O fundo reúne a arrecadação de impostos municipais e estaduais —mais uma complementação da União— e distribui para os estados mais pobres. O modelo vence em 2020 e dois projetos correm no Congresso com sugestões de mudanças, um deles propondo que 70% da soma seja usada para pagar profissionais da Educação —hoje, 60% vai para salários apenas de professores.

PARA AS MULHERES, MENOS AINDA

A dedicação ao magistério é predominantemente feminina —80% dos profissionais são mulheres—, e esse é outro ponto a ser levado em conta quando se fala de remuneração. Embora no sistema público haja uma equiparação salarial entre os dois sexos, mais mulheres atuam na educação infantil e nos anos iniciais do Fundamental, etapas que pior remuneram.
“As sociedades machistas, ao ver como suplementar o papel das mulheres, fortalecem a redução e o achatamento salarial, e isso é evidente na rede de ensino”, afirma Antunes. Para ele, o professor vem sendo destruído naquele que era seu atributo maior: a qualidade intelectual e a formação. “Quando a criança em condição de precariedade encontra um professor mal preparado e desmotivado, trabalhando em ambientes depauperados, isso tem consequências profundas, entre elas a incapacidade de criar um ensino livre, universal, laico e humanista”, afirma.

Mesmo com dupla, tripla, às vezes quádrupla jornada, Danúbia da Costa Teixeira não se vê fora da sala de aula, assim como seus dois irmãos, também professores. Isso não a impede de voltar à carga contra a situação adversa do magistério no país.